quarta-feira, 2 de março de 2011

Ruínas da extinta Telebrás – Aldeia/PE


LTW é um grande amigo e colaborador do Lugares Esquecidos.

Por LTW - Recife- PE

"A Telebrás foi uma empresa brasileira de telecomunicações criada pela lei 5792 em 1972 pelo governo militar. A empresa foi administrada até 1985 pelo comandante Euclides Quandt de Oliveira e pelo general José Antônio de Alencastro e Silva.
Neste período, foi quadriplicado o número de telefones fixos, foi consolidada a Embratel, o Brasil foi integrado por grandes troncos de microondas e ligado ao mundo via cabos submarinos e via satélite, entre tantas outras realizações.
Contudo, com a redemocratização do país, a Telebrás passou a ser administrada pouco a pouco por afilhados políticos com menor qualificação, comprometendo a qualidade do serviço e mergulhando a empresa em um período de retrocesso em que esperava-se anos para instalação de uma linha telefônica (algumas pessoas morreram esperando a instalação).
A Telebrás foi privatizada em 1998 e a região nordeste foi arrematada pela Telemar que passou a se chamar Telemar Norte Leste. É claro que em um processo como esse, o interessado acaba ganhando uns brindes que em nada lhe interessam.
Hoje a OI TNL mantém uma pequena segurança privada com o objetivo de cuidar das antigas instalações da Telebrás de Pernambuco.

Prólogo:
A minha história com as ruínas da antiga Telebrás teve início em 2007 quando eu, então estagiário de uma empresa que enfrentava uma grande crise de solvência, larguei a máquina de Xerox e saí com minha motocicleta para visitar clientes e fechar contratos, mesmo sabendo que não ganharia nada com isso e sequer seria reembolsado do combustível.
Assim, tive dois clientes situados na zona da mata, sendo um na cidade de São Lourenço e outro no conhecido bairro de Aldeia na cidade de Camaragibe em Pernambuco. Uma solitária estrada liga as duas localidades e justamente nela, observei as ruínas de uma estrutura enorme com piscina e tudo mais. Imaginei se tratar de um clube abandonado. De qualquer forma, foi amor a primeira vista.
Contudo, nem mesmo eu pude entender tal fascínio pelo local. Eu já tinha comigo o espírito de um explorador urbano e não sabia. Queria muito voltar, mas por qual motivo? Que loucura seria essa?
Neste momento invejei as crianças, que não precisam de motivos para fazer o que querem. Apenas fazem.
Na época nem sabia que existiam pessoas que visitavam locais esquecidos para contar suas histórias e principalmente, pessoas interessadas em ouvi-las. Assim, esqueci do fato até 2009 quando voltei ao local e percebi que havia um carro na parte de dentro do complexo.
Gritei e chamei a atenção de um guarda que surgiu na janela informando se tratar da antiga Telebrás que fora vendida a Telemar que hoje se chama Oi TNL. Ele informou ainda que só permitiria a entrada com aval da empresa.
Agradeci, fui embora e o tempo passou...
Muitos que leram o início deste artigo poderão ter pensado: “Nossa, que estagiário burro. Trabalha de graça”. De fato, gastei combustível, arrisquei minha vida, não ganhei nada e a empresa faliu do mesmo jeito. Porém fui trabalhar em outras empresas mantendo sempre a mesma postura profissional e cheguei a gerente antes mesmo de me formar na faculdade.
Então, certo dia no ano de 2010, estou voltando do trabalho quando escuto no rádio as notícias sobre um enorme incêndio florestal que assolava a Rússia e que este incêndio já estava alcançando as florestas contaminadas de Chernobyl, gerando grande preocupação.
Algumas pessoas querem ir a París, outras a Nova York, eu quero ir a Chernobyl.
Comecei a pesquisar sobre a cidade e o acidente nuclear por curiosidade mesmo. Acabei descobrindo outras cidades fantasmas e inevitavelmente cheguei até o Urbex. Soube que outras pessoas eram como eu e tinham como hobby, explorar lugares esquecidos contando suas histórias e aventuras. Me identifiquei completamente.
E aqui estava eu. Um homem com uma boa vida, uma boa família, um bom emprego, todo um futuro pela frente, mas sem qualquer emoção. Eu precisava fazer algo antes que morresse de tédio.
E o Urbex veio em boa hora. Lembrei logo da Telebrás para a qual me preparei mentalmente e tecnologicamente, fazendo inclusive, outras explorações.
Só tinha um problema. A Oi TNL nunca me autorizaria a entrada e os guardas estão lá vigiando. Não vi outra alternativa a não ser me infiltrar.



Exploração às ruínas da Telebrás – Aldeia/PE



Visita Preliminar.

Sempre antes de realizar explorações difíceis, faço visitas preliminares ao local com o objetivo de fotografar a fachada, marcar pontos de GPS, descobrir onde os guardas ficam guarnecidos e principalmente, por onde vou me infiltrar sem ser visto. No caso da Telebrás foi fácil, afinal, a cerca de proteção está derrubada em vários pontos, sendo que um específico fica totalmente fora do campo de visão dos mesmos. O mato alto oferece boa cobertura, fiquei super feliz e quase entro no local, porém, estava sem o equipamento necessário. Deixei para outro dia.






A primeira visita.

A primeira visita a Telebrás acabou ocorrendo no dia errado. Na verdade fui visitar outro lugar mas meus planos de infiltração acabaram sendo frustrados por conta de uma chuva que começou a cair. Como já estava na rua todo equipado as 06:00 da manhã de domingo, acabei indo para a Telebrás, mas fui com o equipamento errado, afinal, a Telebrás e muito grande e sequer levei uma garrafa de água. Mesmo correndo o risco de desidratar eu fui.
Sequer havia feito uma pesquisa histórica, logo não sabia muito bem o que iria encontrar. Durante a visita, cheguei a um local com vários quartos com duas camas cada. Imaginei que tipo de empresa seria esta, mas logo me veio a hipótese de que a Telebrás foi criada durante a ditadura militar e este local era administrado por militares e tinha soldados como funcionários. Boa parte deles morava lá mesmo.

Com base nesta informação, não estava mais visitando as ruínas de uma simples empresa, mas sim, uma instalação militar de altíssimo nível. Assim, vou relatar a infiltração e explicar como o local deveria funcionar.

Área de lazer:


Entrei pelo ponto mais distante dos guardas, que é a área de lazer. Também foi um enorme risco entrar por este local tendo em vista que a facilidade de acesso implica prováveis encontros com elementos pouco auspiciosos.
Contudo, apenas animais ocupavam o local.

Nesta área registrei um salão de festas a beira da piscina com banheiros, copa e fraldário. Logo mais a frente está uma casa que não parece ter sido erguida como parte do projeto original. Provavelmente foi construída depois para abrigar o comandante das instalações, ou servia de grêmio, abrigando instrumentos de lazer como jogos, vídeo cassete e outros. Não sei ao certo porque decidi por não explorar esta casa.
O local é cortado por várias ruas sendo que o caminho mais a frente, sem saída, leva até a torre onde ficavam instaladas as antenas e equipamentos de transmissão de dados.

Em resumo, a área de lazer possuía uma piscina de 25 metros com raias, uma piscina menor para crianças, quadras de futebol, vôlei e basquete. Ao andar pelas ruas, percebi marcas de pneus de motocicletas. Imaginei logo que seriam dos guardas, afinal, em uma área tão grande, eles não fariam rondas a pé.











Fotos da torre das antenas





Áreas de convivência:


Beirando o açude ficavam o rancho e os alojamentos.


Rancho:
Aqui eram estocadas e preparadas diariamente, refeições para mais de 100 pessoas. Reparem todas as paredes laváveis, o freezer que teve seu revestimento térmico arrancado, bem como o refeitório. As grandes vidraças possuíam revestimento fumê para ajudar a manter o ambiente climatizado.























Alojamentos:

    A área de alojamentos podia abrigar cerca de 100 pessoas. Cada quarto possuia duas camas, guarda-roupas embutido e banheiro. Uma enorme janela de vidro tomava a parede do teto até o chão dando um look muito legal. Alguns quartos possuem vista para o açude. O local conta também com copa e área de convivência onde deveria haver jogos de sinuca, totó e aparelhos de TV com vídeo cassete. O chão deveria ser encerado o tempo todo e vivia sempre brilhando impecavelmente.

Claro que hoje a realidade é outra. Foi o primeiro local mais sinistro que eu visitei, tendo em vista os corredores escuros, sem falar que antes de entrar tive a impressão de ver um vulto andando no andar de cima, mas ao investigar percebi que foi apenas impressão. O chão ressecado é quebradiço e faz muito barulho quando é pisado. Se houvesse alguém lá, eu teria escutado.
Enfrentar os corredores dos alojamentos é a melhor forma de passar da área de lazer para a área de trabalho sem percorrer a rua ao lado do açude onde o risco de ser visto pelos guardas é muito maior.



























Visitei outros edifícios neste mesmo dia, porém, sem mapas ou pontos de GPS, não sabia muito bem onde estava. Em determinado momento escutei o som de motocicletas circulando e pessoas falando em alto tom. Quando olhei no GPS, percebi que estava próximo ao ponto de vigilância, único local gravado no meu mapa. Imaginei logo que fui visto e que estavam me caçando.

A vantagem das motos é que percorriam todo o local rapidamente, mas a grande desvantagem para eles é que fazia um baita barulho, assim, eu poderia saber mais ou menos onde eles estavam, me escondendo nas ruínas e mantendo distância das ruas asfaltadas.
Continuei a exploração, mas desisti quando voltou a chover. A esta altura a minha câmera já tinha tomado mais água do que eu, que já estava desidratado. Sem falar que já havia registrado o suficiente por um dia. Voltei pelo mesmo caminho e desapareci sem saber o que de fato os guardas procuravam."

Continua...

LTW

TOP 10 - POSTAGENS MAIS POPULARES DO MÊS